A realidade dá sinais.Revista digital independente · Edição de novembro · 2026
Cultura Data-Driven by Gustavo Santos

Crônica 003 de 365

Confirmo, mas não garanto

Na família, confirmar presença é uma manifestação de carinho. Não significa necessariamente que a pessoa vá.

Festa de aniversário de setenta anos num salão cheio: a organizadora olha o celular e uma planilha, preocupada, enquanto a aniversariante ri à mesa com o bolo
Imagem editorial gerada por IA para acompanhar uma crônica de ficção.

Na minha família, confirmar presença é uma manifestação de carinho. Não significa necessariamente que a pessoa vá.

Quando minha prima Patrícia resolveu organizar os setenta anos de tia Ruth, teve a infeliz ideia de fazer uma lista.

Uma lista, veja bem. Com nomes, telefones, número de acompanhantes e uma coluna destinada à confirmação. Era uma planilha de Excel, dessas que ficam bonitas quando a pessoa sabe mexer. Patrícia sabia. Trabalhava com alguma coisa que envolvia relatórios e passava boa parte do dia explicando para outras pessoas por que os números delas estavam errados.

Dessa vez, os números eram nossos.

Minha função era ligar para os parentes que não respondiam às mensagens. Comecei por tio Dário.

Ele atendeu no quarto toque.

"Claro que vou, meu filho! Sua tia já está separando a roupa."

Perguntei quantas pessoas viriam.

"Uai, nós."

Tio Dário tinha três filhos adultos, dois genros, uma nora e um neto que, dependendo da semana, morava com ele.

Pedi uma definição mais precisa de "nós".

Ele se ofendeu.

"Você está achando que vou levar quem?"

Não insisti. Registrei duas pessoas, com uma observação que Patrícia depois apagou por considerar pouco profissional.

Escrevi: Deus sabe.

A preparação correu bem. Patrícia contratou um bufê, alugou cadeiras, distribuiu tarefas e criou um grupo de WhatsApp chamado "Niver Ruth 70 — ORGANIZAÇÃO". O grupo começou com oito pessoas e terminou com quarenta e três. Ninguém sabia como algumas tinham entrado.

Havia discussões importantes.

Uma prima perguntou se podia levar o namorado. Patrícia respondeu que sim, desde que informasse o nome. A prima respondeu que ainda não sabia se seria o mesmo namorado até sábado.

Outra queria saber se haveria opção vegetariana. O marido dela, que comia carne normalmente, perguntou no grupo se a opção vegetariana tinha bacon.

Tia Ruth, naturalmente, descobriu a festa.

Não contou a ninguém. Apenas marcou cabeleireiro para sábado e pediu à vizinha que não fizesse barulho na hora em que os convidados fossem gritar "surpresa".

Na sexta-feira, Patrícia anunciou o resultado final: sessenta e oito confirmações.

Eu disse que era bom contratar comida para oitenta.

Ela me olhou como se eu tivesse sugerido jogar dinheiro pela janela.

"Você não entende. Se a gente ficar trabalhando com achismo, para que serve a planilha?"

A pergunta me pareceu razoável.

Fiquei calado.

No sábado, às sete da noite, havia quarenta e duas pessoas no salão. Patrícia circulava entre as mesas com o celular na mão. Estava satisfeita. Mais alguns convidados e tudo sairia exatamente como previsto.

Às sete e meia, chegaram tia Célia e uma senhora desconhecida.

"Trouxe minha vizinha, coitada. Ficou viúva."

A vizinha se chamava Odete e foi recebida com o respeito devido a quem perdeu o marido, embora ninguém soubesse de quem era o marido.

Cinco minutos depois, tio Dário apareceu.

Trouxe oito pessoas.

Incluía um rapaz que estava hospedado na casa dele havia três dias e que não tinha qualquer relação demonstrável com tia Ruth.

"É praticamente da família", explicou.

Ao que parece, três dias bastavam.

O salão começou a encher. As cadeiras acabaram antes dos convidados. Patrícia descobriu que duas pessoas tinham confirmado presença usando o mesmo telefone e que um tal de Rogério estava na lista duas vezes. Quando o encontrou, percebeu que eram dois Rogérios diferentes, ambos casados com mulheres chamadas Márcia.

Já era tarde para investigar aquela coincidência.

Às oito e vinte, o bufê comunicou discretamente que o jantar contratado era para setenta pessoas.

Havia oitenta e quatro no salão.

Patrícia ficou com aquele olhar de quem acabou de descobrir um erro grave na declaração do Imposto de Renda.

Foi procurar a mãe.

Tia Ruth estava conversando com Odete, a viúva desconhecida. As duas tinham descoberto uma antiga amizade em comum e pareciam íntimas desde a infância.

"Minha mãe, deu tudo errado. Tem gente demais."

Tia Ruth olhou em volta.

"Onde?"

Patrícia apontou para o salão.

"Aqui!"

"Mas está todo mundo se divertindo."

"Esse é o problema!"

Minha tia considerou a frase. Não deve ser comum chegar aos setenta anos e descobrir que a felicidade dos convidados constitui um problema logístico.

Mandou buscar cadeiras na igreja. O pessoal do bufê reorganizou as travessas. Algumas crianças, que já tinham comido salgadinhos suficientes para passar uma semana sem alimentação, foram dispensadas do jantar.

Deu tudo certo, dentro das possibilidades de uma família como a nossa.

Na manhã seguinte, Patrícia apareceu para tomar café na casa da mãe.

Estava exausta. Trazia o computador debaixo do braço.

Abriu a planilha, conferiu os nomes, comparou confirmações e presenças. Queria descobrir onde tinha errado.

Tia Ruth acompanhou o trabalho durante alguns minutos.

Depois comentou que a festa tinha sido maravilhosa.

Patrícia agradeceu, sem tirar os olhos da tela.

"Mas a senhora tem que entender, mãe. Eu tinha sessenta e oito pessoas confirmadas e apareceram oitenta e quatro."

"Eu vi."

"E ainda teve gente que confirmou e não apareceu."

"Teve."

"Como é que pode uma coisa dessas?"

Tia Ruth passou manteiga no pão.

"Minha filha, você passou três semanas perguntando se o povo vinha. Devia ter perguntado se trazia alguém."

Patrícia continuou olhando para a planilha.

Achei melhor sair de perto.

Até hoje, na lista da festa, tio Dário aparece como duas pessoas.

É uma injustiça com os outros seis.

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