A realidade dá sinais.Revista digital independente · Edição de novembro · 2026
Cultura Data-Driven by Gustavo Santos

Crônica 004 de 365

A reforma dos ausentes

A prefeitura perguntou o que a praça precisava. Responderam trinta e quatro pessoas — e nenhuma delas mencionou a torneira.

Numa praça com coreto e jogadores de dominó, uma mulher de crachá mostra um projeto num tablet a um senhor de chapéu sentado num banco antigo, ao lado de uma placa com QR Code
Imagem editorial gerada por IA para acompanhar uma crônica de ficção.

A primeira coisa que fizeram para melhorar a praça foi colocar uma placa.

Era uma placa bonita, com o brasão da prefeitura, o nome de uma secretaria e um quadradinho chamado QR Code. O cidadão deveria apontar o celular para o quadradinho e dizer o que gostaria que fosse feito naquele espaço.

A praça ficava no centro de um bairro antigo. Tinha um coreto, dois canteiros de roseiras, nove bancos de cimento e uma torneira que não funcionava. Havia também uma árvore enorme cuja espécie ninguém sabia informar, mas cuja sombra tinha uma clientela fiel.

Os frequentadores habituais da praça receberam a placa com indiferença.

Seu Arlindo, por exemplo, passou por ela durante quatro dias sem perceber.

Era aposentado, viúvo e possuía um telefone celular que servia para telefonar. Tinha orgulho disso. Considerava um abuso que os fabricantes quisessem fazer o aparelho tirar fotografias, indicar caminhos e até responder perguntas. Para essas coisas, argumentava, existiam máquinas fotográficas, mapas e pessoas.

Na quinta-feira, o jornaleiro explicou a novidade.

"Estão fazendo uma pesquisa sobre a praça."

Seu Arlindo examinou a placa.

"E onde é que responde?"

O rapaz apontou para o quadradinho.

"Ali."

"Com lápis?"

"Com celular."

Seu Arlindo achou uma maneira excessivamente complicada de perguntar alguma coisa a alguém que estava ali, perfeitamente disponível para conversar.

Mas não reclamou.

Tinha ido comprar jornal.

A pesquisa durou quinze dias. Ao final, a prefeitura recebeu trinta e quatro respostas.

O resultado foi considerado bastante positivo.

A maioria dos participantes desejava uma praça moderna, com internet gratuita, tomadas para carregar telefones, mesas de trabalho e equipamentos de ginástica. Algumas pessoas pediram jardins mais bonitos. Duas reclamaram da iluminação.

Ninguém mencionou a torneira.

A prefeitura preparou um projeto.

Os bancos antigos seriam substituídos por peças de desenho contemporâneo. O coreto perderia parte do espaço para dar lugar a uma área de convivência. Haveria uma pequena estação de trabalho ao ar livre, com tomadas, cobertura metálica e pontos de conexão.

O arquiteto responsável era um rapaz simpático, de óculos redondos, que visitou a praça numa manhã de quarta-feira.

Encontrou Seu Arlindo sentado no banco próximo à árvore.

"Bom dia. O senhor vem sempre aqui?"

"Venho."

"Estamos preparando uma revitalização."

"Que bom."

"O senhor já viu o projeto?"

"Não."

O arquiteto mostrou algumas imagens no tablet.

Seu Arlindo examinou os desenhos com atenção.

Perguntou onde ficaria a árvore.

O arquiteto explicou que seria preservada.

Perguntou pelos bancos.

Seriam substituídos.

"E a torneira?"

O rapaz procurou a informação no projeto. Não encontrou.

"Podemos verificar."

Seu Arlindo agradeceu.

Depois quis saber onde os velhos jogariam dominó.

O arquiteto apontou para uma área de convivência.

"Ali teremos mesas compartilhadas, com acesso à internet."

Seu Arlindo achou interessante.

"Mas vai poder bater pedra?"

O arquiteto não entendeu.

Seu Arlindo explicou que, no dominó, alguns jogadores tinham o hábito de bater as peças na mesa com entusiasmo, especialmente quando estavam perdendo. Isso fazia parte do jogo. Mesas muito delicadas não serviam.

O arquiteto prometeu considerar.

A reunião pública aconteceu na sexta-feira.

O salão da associação de moradores recebeu funcionários da prefeitura, representantes de empresas e alguns moradores. Havia uma apresentação projetada na parede.

Seu Arlindo foi porque o jornaleiro disse que haveria café.

Durante a exposição, a coordenadora mostrou o resultado da consulta.

Segundo ela, mais de setenta por cento dos participantes desejavam espaços para atividades digitais.

Seu Arlindo levantou a mão.

Perguntou quantas pessoas tinham respondido.

"Trinta e quatro", informou a coordenadora.

Ele fez uma conta mental, atividade que praticava desde antes de inventarem calculadoras que também tiravam fotografias.

"Então umas vinte e poucas pessoas querem trabalhar na praça?"

A coordenadora confirmou.

Seu Arlindo pensou mais um pouco.

"Engraçado. Eu vou lá todo dia e nunca vi ninguém querendo trabalhar."

Algumas pessoas riram.

O arquiteto explicou que a praça precisava atrair novos públicos.

Seu Arlindo concordou. Não tinha nada contra novos públicos. Já havia, inclusive, permitido que dois adolescentes ocupassem seu banco numa tarde de chuva, embora um deles tivesse colocado os tênis em cima do assento.

A discussão seguiu.

Uma senhora pediu banheiros. Outra reclamou das raízes das árvores. Um comerciante queria mais iluminação. Um rapaz sugeriu instalar uma câmera.

Seu Arlindo pediu novamente a torneira.

No final, a coordenadora explicou que todas as manifestações seriam consideradas.

O projeto sofreu algumas alterações.

Mantiveram os bancos próximos à árvore, reservaram uma mesa resistente para os jogadores e incluíram o conserto da torneira.

As tomadas também foram instaladas.

A internet funcionou durante a primeira semana, depois passou a exigir uma senha que ninguém soube informar.

A inauguração ocorreu num sábado de manhã.

Vieram autoridades, fotógrafos e uma banda da escola municipal. Cortaram uma fita, fizeram discursos e tiraram muitas fotografias.

Seu Arlindo assistiu à cerimônia de seu banco habitual.

No dia seguinte, a praça voltou ao normal.

As senhoras caminharam, os meninos andaram de bicicleta, os jogadores de dominó discutiram uma partida que ninguém mais lembrava como tinha começado.

O novo espaço de trabalho permaneceu vazio.

Na terça-feira, um funcionário da prefeitura apareceu com uma prancheta para avaliar a satisfação dos usuários.

Encontrou Seu Arlindo enchendo uma garrafinha na torneira recém-consertada.

Perguntou se ele estava satisfeito com a revitalização.

"Muito."

O funcionário fez uma anotação.

Perguntou qual equipamento novo o senhor utilizava com mais frequência.

Seu Arlindo apontou para a torneira.

O rapaz procurou a opção correspondente no formulário.

Não havia.

"Posso marcar 'outros'?"

Seu Arlindo disse que podia.

O funcionário marcou.

Naquele mês, o relatório da prefeitura registrou aumento na utilização de equipamentos diversos.

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