Uma crônica sobre o amor, o ódio e a irresponsabilidade de fundar o Clube Atlético Mineiro.

Eu tenho uma questão pessoal com vinte e dois rapazes que viveram em Belo Horizonte no começo do século passado.

Não os conheci. Nunca lhes fiz mal. Não temos desavenças familiares, dívidas pendentes ou disputas de herança.

Aliás, quando eles nasceram, eu nem sequer estava nos planos de Deus.

Mas os odeio.

E tenho razões.

Tudo começou numa quarta-feira, 25 de março de 1908, quando um grupo de estudantes resolveu matar aula e se reunir no coreto do Parque Municipal de Belo Horizonte.

A cidade tinha pouco mais de dez anos. Era jovem, tranquila, ainda aprendendo a ser capital. Tinha ruas novas, árvores recém-plantadas e uma população que não fazia ideia do que estava prestes a acontecer.

Aqueles rapazes poderiam ter feito qualquer coisa.

Poderiam ter estudado medicina, discutido literatura, aprendido violino, organizado um clube de xadrez ou simplesmente continuado a matar aula, como fazem estudantes normais.

Mas não.

Resolveram fundar um time de futebol.

O Athlético Mineiro Football Club.

E assim, sem consultar as gerações futuras, começaram a arruinar a minha paz.

É importante esclarecer que a história registra vinte e dois fundadores, embora nem todos tenham participado daquela reunião inicial. O futebol se joga com onze, mas foram necessários vinte e dois irresponsáveis para criar tamanho problema.

Entre eles estavam Margival Mendes Leal, Mário Lott, Eurico Catão, Mário Neves, Antônio Antunes Filho e outros jovens cujos nomes deveriam constar não apenas dos livros de história, mas também de um processo coletivo de indenização por danos emocionais.

Margival, conhecido como Vate, tornou-se o primeiro presidente.

Presidente!

Os meninos nem tinham uma bola decente e já estavam distribuindo cargos.

Aliás, conseguir a bola foi uma aventura.

Conta a história que Antônio Antunes Filho, o Ninico, mantinha contato com um conhecido na França, para quem enviava besouros e outros pequenos animais. Aproveitou os créditos dessas remessas para conseguir uma bola de futebol.

Uma bola comprada com besouros!

É preciso reconhecer a originalidade do negócio.

Mas faço aqui uma pergunta perfeitamente razoável: não teria sido melhor deixar os besouros na França e a bola por lá mesmo?

Quantas tardes de domingo teriam sido poupadas? Quantos controles remotos estariam inteiros? Quantas famílias teriam desfrutado de um almoço tranquilo?

O destino, infelizmente, não trabalha com essas considerações.

A bola chegou.

E a tragédia começou.

Havia ainda dona Alice Neves, mãe de Mário Neves, que acolheu aquela turma, costurou os primeiros uniformes, bordou bandeiras e ajudou a organizar a torcida.

Tenho profundo respeito por dona Alice.

Mas ela também tem sua parcela de responsabilidade.

Imagine uma senhora dedicada, trabalhando pacientemente em sua máquina de costura, sem imaginar que, a cada ponto dado naquele tecido preto e branco, costurava também um pedaço da minha futura inquietação.

Dizem que ela própria perdia o bom humor quando o Atlético perdia.

Pois é, dona Alice.

A senhora começou a perceber o tamanho do problema.

Em 21 de março de 1909, veio a primeira partida, contra o Sport Club.

O Atlético venceu por três a zero.

Era o começo.

E foi aí que cometeram o segundo grande erro: ganharam.

Porque a vitória é uma substância perigosa.

Provoca expectativa.

O torcedor experimenta uma vez e passa o restante da vida querendo repetir a sensação.

Veio a Taça Bueno Brandão, em 1914. Depois, o primeiro Campeonato Mineiro, em 1915. O clube cresceu, conquistou torcedores, ganhou campeonatos e foi se espalhando pelos corações mineiros como uma epidemia para a qual jamais se descobriu vacina.

Em 1937, conquistou o título nacional que décadas depois seria reconhecido como Campeonato Brasileiro.

Em 1950, atravessou o oceano e enfrentou o frio europeu, ganhando o apelido de Campeão do Gelo.

Em 1971, conquistou o Brasil novamente.

E então veio aquele fenômeno tipicamente atleticano: a espera.

Uma espera acompanhada de promessas, de quase, de injustiças que o torcedor jamais esquece, de domingos gloriosos e de outros que deveriam ser apagados do calendário.

Até a segunda divisão eles me fizeram conhecer.

Segunda divisão!

Eu, que nunca pedi a ninguém para disputar campeonato nenhum.

Em 2013, quando finalmente conquistamos a Libertadores, pensei que a dívida emocional estivesse quitada.

Mas não.

Até para ganhar aquela competição o Atlético precisou me levar à beira de um colapso.

Pênalti defendido com o pé pelo Victor, classificações improváveis, gols no limite da esperança.

O Atlético não sabe simplesmente ganhar.

Precisa antes convencer o torcedor de que tudo está perdido.

Em 2014, mais títulos. Em 2021, o Campeonato Brasileiro outra vez, além da Copa do Brasil.

Pensei: pronto. Agora posso envelhecer em paz.

Ingenuidade minha.

Construíram até uma casa nova, a Arena MRV, inaugurada para jogos oficiais em 2023.

Um estádio moderno, confortável, magnífico.

Uma estrutura extraordinária para que eu possa passar raiva com instalações de primeiro mundo.

Porque é isso que aqueles meninos fizeram comigo.

Eu organizo minha vida. Trabalho, resolvo problemas, faço planos, pago contas, tento ser racional.

Acredito em dados, números, evidências e decisões fundamentadas.

Até o Atlético entrar em campo.

Aí desaparece a razão.

Um jogador erra um passe de três metros, e eu questiono a evolução da espécie humana.

O técnico faz uma substituição, e eu me pergunto se ele assistiu ao mesmo jogo que eu.

O juiz marca uma falta, e minha confiança nas instituições entra em colapso.

Quando o Atlético perde, fico indignado.

Juro que não assistirei ao próximo jogo.

Digo que aquilo é um absurdo.

Que tenho coisas melhores para fazer.

Que não posso permitir que onze milionários correndo atrás de uma bola determinem meu estado emocional.

E estou absolutamente certo.

Até chegar o próximo jogo.

Quando percebo, já estou procurando a escalação, calculando as chances, discutindo o esquema tático e acreditando, contra todas as evidências, que agora vai.

Minha relação com o Atlético é um caso clássico de amor e ódio.

Eu o amo quando ganha.

Odeio quando perde.

Odeio quando empata um jogo que deveria ganhar.

Odeio quando ganha jogando mal.

E, às vezes, até quando ganha jogando bem, encontro alguma coisa para reclamar.

Mas existe uma diferença fundamental.

O amor permanece depois que a partida termina.

O ódio precisa esperar o próximo apito inicial.

E talvez seja esse o grande mistério.

Aqueles rapazes de 1908 não fundaram apenas um clube.

Fundaram uma maneira de sentir.

Criaram uma comunidade de pessoas que não precisam se conhecer para sofrer juntas.

Um homem pode abraçar um completo desconhecido depois de um gol, como se fossem irmãos separados ao nascer.

Pode discutir violentamente com outro torcedor durante o primeiro tempo e, no segundo, estar abraçado a ele.

Pode transmitir essa paixão aos filhos, sabendo perfeitamente o sofrimento que está lhes oferecendo como herança.

É uma irresponsabilidade hereditária.

Mas é também uma das poucas formas de amor que não exigem explicação.

Às vezes imagino que uma máquina do tempo me permitisse voltar àquele 25 de março de 1908.

Eu caminharia pelas ruas da jovem Belo Horizonte até o Parque Municipal.

Encontraria os rapazes no coreto, entusiasmados com a ideia de fundar um clube.

Margival estaria organizando a reunião. Mário Lott talvez discutisse algum detalhe. Ninico provavelmente ainda teria seus negócios com besouros.

Eu me aproximaria.

Pediria a palavra.

E diria:

— Meus jovens, vocês têm consciência do que estão fazendo?

Eles me olhariam sem entender.

— Vocês estão prestes a comprometer a saúde emocional de milhões de pessoas. Estão criando uma entidade capaz de destruir domingos, provocar discussões familiares e transformar adultos perfeitamente equilibrados em criaturas que gritam sozinhas diante de uma televisão.

Talvez rissem.

Eu continuaria:

— Vocês sabem o que é perder um campeonato nos pênaltis? Sabem o que é tomar um gol aos quarenta e oito do segundo tempo? Sabem o que é passar noventa minutos acreditando numa vitória que não vem?

Certamente não saberiam.

E então um deles perguntaria:

— Mas o senhor não gosta de futebol?

Eu ficaria em silêncio.

Olharia para aqueles rostos jovens, para a cidade que ainda nascia, para a bola que um dia chegaria da França.

Pensaria nas vitórias, nos títulos, nas derrotas, nas lágrimas.

Nos abraços.

Nos amigos.

Pensaria no meu pai, americano. Do América Mineiro, é bom esclarecer. Afinal, nem toda família compartilha o mesmo escudo.

E pensaria nos meus filhos.

Ah, os meus filhos...

Porque, conhecendo todas as alegrias e cada uma das desgraças emocionais que o Atlético é capaz de proporcionar, fiz com eles exatamente o que aqueles meninos fizeram comigo.

Não os consultei.

Simplesmente os condenei à mesma maldição.

Com uma diferença: aqueles rapazes, em 1908, não sabiam o que estavam criando.

Eu sabia.

E fiz assim mesmo.

Então responderia ao menino:

— Gosto, meu filho. Gosto demais. Esse é o problema.

Provavelmente eles não entenderiam.

Afinal, tinham acabado de inventar o Atlético.

Ainda não sabiam o que significava ser atleticano.

Então eu voltaria para o meu tempo, resignado, porque já sei como essa história termina.

Aliás, não termina.

No próximo jogo, estarei novamente diante da televisão, vestindo preto e branco, com o coração acelerado e a esperança renovada.

E se o Atlético perder, vou xingar o técnico, os jogadores, o juiz, a diretoria e, naturalmente, aqueles vinte e dois meninos do coreto.

Mas se ganhar...

Ah, se ganhar...

Vou agradecer a todos eles.

Um por um.

Porque, no fundo, a verdade é uma só:

Eu odeio aqueles meninos por terem me condenado a amar o Atlético.

E os amo por terem me dado uma coisa que nem todas as derrotas do mundo conseguem tirar de mim.

O direito de ser Galo.

Mesmo quando eu preferia não ser.

Principalmente quando eu preferia não ser.