Há uma frase muito usada nas empresas.

Eu acho.

Ela costuma aparecer com a segurança de quem já encerrou a investigação.

“Eu acho que segunda-feira não vende.”

“Eu acho que cliente daqui não compra isso.”

“Eu acho que nosso público não quer.”

Às vezes acerta. Experiência existe por um motivo. O problema começa quando o palpite recebe crachá de evidência e passa a frequentar reunião como se tivesse sido auditado.

Uma tapioca no meio do caminho

Há um caso contado por Diego Barreto, ligado ao iFood, que gosto porque ele parece pequeno demais para explicar uma ideia grande.

Pessoas de um determinado bairro procuravam tapioca no aplicativo. Procuravam e não encontravam oferta suficiente.

Do outro lado da rua havia padarias.

Tinham goma. Tinham queijo. Tinham frigideira. Tinham cozinha. Tinham gente que sabia preparar comida.

Faltava uma coisa curiosa: saber que alguém estava procurando tapioca.

O dado existia como sinal antes de virar decisão. A busca do cliente estava dizendo alguma coisa. Mas sinal que ninguém percebe é quase silêncio.

O interessante do caso não é o algoritmo. Algoritmo é ferramenta. O interessante é a pergunta escondida dentro dele:

Onde existe uma demanda que ainda não encontrou uma oferta?

Essa pergunta muda tudo.

Porque, depois dela, os dados deixam de ser coleção e passam a ter uma tarefa.

A pergunta vem antes do painel

Empresas acumulam informação com uma facilidade extraordinária.

Planilhas. Sistemas. E-mails. pedidos. horários. reclamações. descontos. estoque. visitas. mensagens de WhatsApp. buscas. atrasos. devoluções.

A realidade fala o dia inteiro.

Só que acumular fala não é o mesmo que ouvir.

Um dashboard pode mostrar cinquenta indicadores e ainda assim não responder a pergunta que realmente importa. Às vezes ocorre o contrário: a pergunta certa cabe numa planilha de dez linhas.

Por isso, Cultura Data-Driven não começa no gráfico. Começa numa inquietação.

O que está acontecendo aqui que ainda não conseguimos enxergar?

Intuição não é inimiga

O dono do restaurante diz que quarta-feira vende mais.

Ótimo.

Isso não precisa ser combatido. Precisa ser investigado.

A experiência dele percebeu alguma coisa. Talvez esteja certo. Talvez não. Talvez esteja certo pelo motivo errado.

A intuição abre a pergunta.

Os dados ajudam a testar.

A evidência melhora a interpretação.

E a decisão muda alguma coisa na operação.

Se nada muda, tivemos análise. Não necessariamente inteligência.

Dado sozinho é uma maneira moderna de acumular silêncio

O valor aparece quando atravessamos a cadeia inteira:

sinal → dado → informação → evidência → interpretação → decisão → ação → resultado → aprendizado.

É por isso que uma empresa cheia de tecnologia pode decidir mal. E uma pequena empresa, com registros simples e uma boa disciplina de investigação, pode tomar decisões excelentes.

O tamanho da tecnologia não define a maturidade.

A recorrência da capacidade, sim.

A padaria podia fazer a tapioca.

O cliente queria comprar.

Entre os dois havia apenas uma coisa faltando.

Alguém precisava escutar o sinal.


Este texto é uma crônica original de Gustavo Santos. O caso da tapioca é baseado em relato atribuído a Diego Barreto em entrevista ao Flow Podcast em 2025 e é utilizado aqui como exemplo da relação entre pergunta, dado e decisão.